Entenda a diferença entre ovos convencionais e ovos orgânicos


Com colaboração de Luiza Damigo, da HSI
OVO OK
Se você quebrar um ovo convencional e um ovo orgânico, lado a lado, rapidamente perceberá a diferença entre um e outro. O ovo orgânico costuma ser mais “vistoso”, mais amarelo e com cheiro mais característico. E mesmo para paladares (mal) acostumados, o gosto também é diferente. 
Em geral, alimentos que passam por processos industriais perdem características nutritivas, de sabor, de cor, de textura e de aroma. Prova disso são as enormes quantidades de aditivos químicos para acentuar artificialmente todas essas características nos produtos que, em primeira instância, foram feitos para vender, não para alimentar (alimentar de forma saudável, nutritiva, verdadeira). – Saiba mais sobre alimentos ultraprocessados neste post.
Se você consegue imaginar uma linha de produção de iogurtes ou biscoitos, com equipamentos preenchendo as embalagens e esteiras rolantes velozes, pode partir do mesmo raciocínio para os ovos. Ao invés das máquinas, no entanto, coloque no lugar as galinhas. A lógica é a mesma, com uma diferença: seres que não são máquinas trabalham como se  fossem – e isso pode ocasionar problemas para a galinha, para o ovo que ela produz e para quem consome.
Ao serem transformadas em máquinas, desprovidas de espaço e tempo para seus hábitos, instintos e necessidades, elas entram em um sistema de produção que aumenta (muito!) a quantidade de ovos produzidos, em detrimento, claro, da qualidade e da sanidade animal. A produção de ovos é só mais um exemplo de como a supervalorização da alta produtividade tem levado a humanidade a uma (sensação de) modernidade, que não se desenvolve sem estar acompanhada de diversos problemas sociais, ambientais, econômicos e de saúde.
Portanto, eis a principal diferença entre ovos convencionais e orgânicos: a forma como as galinhas são criadas para produzi-los.
O que é o sistema convencionalNa produção convencional, várias galinhas poedeiras (cuja função é produzir ovos) são colocadas nas chamadas “gaiolas em bateria”, pequenos espaços onde são praticamente incapazes de se mover e não podem expressar a maioria de seus comportamentos básicos como andar, ciscar, empoleirar, saltar ou esticar as asas. Cada galinha tem um espaço menor do que a superfície de uma folha de papel ofício, no qual permanece durante sua toda sua vida.
Segundo a organização de proteção animal Humane Society International (HSI), o principal problema das gaiolas é “a severa restrição do movimento e a privação da oportunidade de exibir comportamentos naturais importantes”. Por exemplo: esse tipo de sistema impede a nidificação, ato de buscar uma área isolada em que o animal possa cuidadosamente limpar uma superfície de solo para preparar seu ninho. Além disso, galinhas engaioladas sofrem com a perda de resistência óssea e fadiga de gaiola – distúrbio em que o sistema esquelético se enfraquece e pode levar a fraturas, paralisia e morte.
No Brasil, mais de 70 milhões de galinhas são confinadas em gaiolas como a da foto:
GAIOLAS-EM-BATERIA-2-Ana-M.-A.-Mitidiero
A produção em gaiolas convencionais foi proibida em toda a União Europeia em 2012 e leis em três estados americanos – Michigan, Ohio e Califórnia – já foram aprovadas para restringir o confinamento de poedeiras em gaiolas. A Índia agora também discute uma proibição nacional.
Outro ponto importante do sistema convencional é a alimentação das galinhas. “A ração varia conforme a idade da ave, pois suas necessidades mudam ao longo do ciclo produtivo. Basicamente, há uma boa fonte de cálcio (há uma alta demanda para a produção da casca do ovo), milho (fonte de energia), soja (fonte de proteína e aminoácidos), farinhas de origem animal (fonte de proteína), premix vitamínico e mineral”, explica Ana Paula O. Souza, médica veterinária especialista em Gestão da Qualidade de Alimentos, mestranda em Ciências Veterinárias, consultora e auditora de segurança alimentar e bem-estar animal.
Atualmente, mais da metade da soja e do milho produzidos no Brasil são de origem transgênica. “As rações que não são solicitadas como OGM free [OGM: organismo geneticamente modificado] provavelmente terão produto OGM”, diz Ana Paula.
As farinhas de origem animal colocadas nas rações consistem em uma mistura de subprodutos não comestíveis de bovinos, suínos, aves e peixes, como penas, carcaças, carnes e vísceras. Além de serem fontes de proteína de baixo custo,  são uma forma de escoar os resíduos oriundos dos abatedouros.  “Para serem utilizados na alimentação de poedeiras, produtos de origem animal devem ser oriundos de fornecedores idôneos isto é, que seguem boas práticas de fabricação durante o processamento dos produtos e os entregam dentro das especificações de qualidade e segurança sanitária”, explica Helenice  Mazzuco, Ph.D. em Nutrição e Fisiologia  e pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves.
De acordo com pesquisadora Ana Paula, as farinhas de origem animal passam por um tratamento térmico para eliminação de patógenos (133 graus celsius por 20 minutos a 3 bar de pressão) e a ração pronta recebe um segundo tratamento térmico.  “Em alguns casos pode ser exigência do cliente a ausência de  farinhas de origem animal na ração das aves, então as fábricas devem demonstrar a rastreabilidade e ter todo um controle de separação e limpeza de linhas, sem fluxo cruzado, para garantir o atendimento dessa exigência”, afirma.
Outro problema dos sistemas intensivos de criação são os surtos de Salmonella. Um relatório da HSI internacional (por enquanto, disponível apenas em inglês) revisou 15 estudos publicados nos últimos anos e concluiu que ovos provenientes de granjas-fábrica são mais propensos a infecções pela bactéria, responsável por intoxicação alimentar que pode levar à morte. A organização mostra que a industrialização da produção animal tornou a doença um problema de saúde pública e que os fatores favoráveis à proliferação da doença vão desde o tamanho do lote de animais até a dificuldade de higienizar as gaiolas. As pesquisas também demonstram que as colônias de Salmonella tendem a ser mais resistentes em sistemas de confinamento do que nos sistemas sem gaiolas.
Outra forma de produzir…Alguns sistemas certificados como orgânicos buscam respeitar as necessidades do animal. Todos os parâmetros para esse tipo de produção podem ser vistos no guia de boas práticas para galinhas poedeiras da Ecocert, certificadora que atende as diretrizes da Human Farm Animal Care no Brasil. A certificação garante  cuidados básicos na criação de galinhas poedeiras, cabras, frangos de corte, bovinos, ovelhas, perus e suínos.
Produção cage-free (sem gaiolas) no Brasil. Credito Humane Society International (HSI) 2OK
O guia inclui, dentre outras coisas:
- Instalações físicas adequadas que favoreçam o bem-estar animal (com área mínima de piso disponível para as galinhas, controle de qualidade do ar e temperatura, ventilação e iluminação adequadas);
- Controle do número de aves em um mesmo local;
- Controle da disponibilidade de água para os animais;
- Padrões de higienização;
- Cuidados com a saúde dos animais;
- Procedimentos adequados para a remoção e transporte das galinhas;
- Planejamento e gerenciamento responsável e cuidadoso;
- Acesso dos animais à alimentação saudável e nutritiva ;
- Fornecimento de alimentos frescos, que não fiquem velhos nem sejam mantidos nos comedouros em condições de contaminação;
- Proibição ao uso de promotores de crescimento;
- Uso de antibióticos apenas com orientação de um veterinário.
O caso da maioneseA base do popular acompanhamento de hambúrgueres e saladas é… ovo. E se a maionese brasileira fosse orgânica?  A demanda dos consumidores fez o assunto entrar na pauta até mesmo das multinacionais instaladas no Brasil, país que já está bem atrás da Europa na discussão do assunto. Por lá, a transição do sistema convencional para o orgânico já foi feita, e do Canadá e EUA, onde está em andamento.
No evento “Oportunidades de mercado para ovos caipira e orgânicos”, que aconteceu em setembro em Bastos, no interior de São Paulo, a fabricante da maionese Hellmann’s anunciou que todos os ovos usados na fabricação do produto  serão 100% produzidos em sistemas sem gaiolas até 2020.
Como não poderia ser diferente,  a adaptação no Brasil será lenta, uma vez que a cadeia de suprimentos de ovos não está preparada para atender todo o mercado. Sadala Tfaile, gerente nacional de vendas de postura comercial da Big Dutchman, uma das maiores fornecedoras de equipamento para produção de ovos no mundo, explicou que ao contrário do que muitos imaginam, as experiências americana e europeia provam que os sistemas ‘cage-free’ – sem gaiolas em galpões fechados – são atrativos para grandes produtores, pois podem ter grande escala e custos similares aos da produção em gaiolas, além de maximizar o uso de espaço por meio de pisos múltiplos e serem totalmente automatizados.
Imagens: 1. SXC.HU; 2. Ana M. A. Mitidiero; 3. HSI
Fonte: http://super.abril.com.br/blogs/ideias-verdes/entenda-a-diferenca-entre-ovos-convencionais-e-ovos-organicos/
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